Les enfants perdus
Acordo e lá estou eu. Na mesa com todas aquelas pessoas almoçando. Supostamente eu. Supostamente alguém que sou para todos eles. E que nem eles sabem quem. Porque não enxergam, não me enxergam e nem me enxergarão. Se eu levantar e me atrever no meio da chuva lá fora, ninguém perguntará por que. Nem me acudirão pensando ser um surto psicótico. Somente me olharão reprovadamente, como se eu os abandonasse pela chuva. E sairei eu com um falso orgulho de quem não está precisando se importar com os olhares, de quem se libertou da obrigação do cinismo. Mas é tudo falso, é tudo cinismo de verdade.
Mas continuo sentada, dando garfadas na comida que nem sequer sei por que estou comendo. Não entendo o que faço ali. Não entendo por que este ritual dá ritmo às minhas semanas. E continuo coadjuvando as tardes, esperando vergonhosamente uma palavra em direção a mim. Uma palavra de alguém que queira conhecer o meu outro lado, e não este. Este lado é vazio é envolto de olhares curiosos, de estranhamentos externos. O outro é oculto, meu. Só meu e de alguns. Alguns poucos, mas não destes.
Às vezes a esperança se concretiza e me perguntam. E meu rosto fica corado como as acerolas da árvore do quintal. Mas além d’eu não conseguir simplificar-me em poucas palavras, noto um desinteresse, uma obrigação. Então me simplifico com a má vontade de sempre. Sem ligar de ser novamente aquele vazio de ser, ou talvez aquela oclusão toda.
Vez em quando tenho vontade de gritar. De largar os garfos na mesa, subir nela, chutar todos os alimentos e gritar. Mesmo sabendo que nem o mais alto grito faria que eu estivesse realmente ali. Porque quando não querem enxergar não adianta. Nem quando não querem ouvir.

1 Comments:
PUTA QUE O PARIU! que texto fo-da!
fiquei quieto.
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